Mudança

Passei quase três anos publicando aqui. Confesso que tenho uma afeição por este blogue, como tenho por todos os que já criei. Mas confesso também que, de uns tempos para cá, tenho visto isto aqui como uma verdadeira colcha de retalhos.

Por isso resolvi mudar, para fazer algo mais homogêneo, mais como eu acho que deve ser para mim agora. Portanto, para continuar me acompanhando, é só clicar aqui. Te encontro lá!

Da Solidão Compartilhada

Quanto mais só eu me sinto,

mais parte do mundo eu sou.

O Diário

Sou apaixonada por diários; aqueles de papel, em que as meninas costumavam escrever antes da era dos blogues, mas nos quais algumas pessoas, ainda hoje, registram seus pensamentos. Mais do que os livrinhos decorados ou não, o que me encanta fica dentro deles: pensamentos, segredos, escritas de angústia e libertação.

Já fiz várias tentativas de escrever um diário com regularidade, mas nunca consegui; é claro que eu acho muito mais charmoso escrever à mão, mas meu senso prático não me abandona. Acontece que eu não gosto de acumular coisas; meu espaço precisa sempre ser renovado; em vez de acumular, faço meus objetos circularem. A ideia de colecionar livros com memórias não me atrai.

Embora eu ache meio tarde começar um diário aos 25 anos, sem registro da vida até aqui, tenho tido alguns impulsos irresistíveis. Assim, como se não tivesse mais nada para me preocupar, como dois blogues nos quais raramente dei as caras durante este mês, decidi iniciar um diário; eletrônico, é claro! Na prática, agora, serão três blogues; mas o último, ao qual me refiro agora, é privado; vai conter coisas que só dizem respeito a mim e agora a ele. Será meu ponto de fuga, minha terapia, meu confessionário, minha beira do precipício.

E por que você, leitor, deveria se interessar por isso? Porque hoje, se eu tivesse de lhe dar um conselho, que aliás você não pediu, eu diria: faça um diário e coloque nele aquela parte escondida da sua alma, aquela parte tímida, impublicável, cheia de vida, certezas e perguntas. Minha pouca experiência me diz que isso quebra correntes. Além disso, quando você quiser se lembrar das vezes em que foi ridículo ou genial, terá ajuda certa, sem a confusão da memória.

Autorretrato

Era uma moça que tinha as palavras na palma da mão. Para todas as perguntas, diziam os amigos, tinha uma resposta; para todos os rostos, havia um retrato feito de letras. De sua boca, as palavras só vinham quando ela achava que valiam a pena. Por isso mesmo, gostava mais de escrever do que de falar; o papel não exigia que a boca dissesse aquilo que mais sensatamente caberia ao silêncio; o papel era um confessionário, um cofre onde ela guardava aquelas palavras, aqueles tesouros.

Um dia, ao acordar de um sono vivo, estendeu a mão, pegou o caderno de apontamentos que jazia no criado-mudo e, abrindo a janela para que o sol iluminasse o quarto, pôs-se a escrever sobre a vida que acabara de ter num sonho.

Era eu mesma diante de mim. Via cômo num espelho. Sim, era eu mesma, mas de um jeito diferente; não me reconheci de todo, mas seria impossível me enganar. Tinha um rosto de criança simples, criança que sorria indulgente. Alternava entre o sorriso e uma expressão triste de quem se sentia só. Lembrei-me das vezes em que, diante da superficialidade e da benevolência de quem me via com a fragilidade de uma criança, respondi com nada além do que esperavam de mim, numa atitude de quem guarda o melhor de si para alguém desconhecido.

Fiquei parada a olhar para aquele espelho, enquanto a imagem se desvanecia. Antes que eu pudesse desviar o olhar, surgiu outra de mim. Não pude deixar de sorrir ao me reconhecer outra vez, mas não com aquele sorriso infantil. Era uma moça crescida, com uma expressão distraída de quem sonhava. Usava um vestido azul, parecia muito leve. Eu podia esperar qualquer coisa naquele momento, menos ouvir a voz daquela moça, tão parecida com a minha própria: ‘Livre!’, foi sua única palavra, dita sem que a expressão sonhadora se modificasse. Sim, ela queria ser livre; ela já era livre, tinha a liberdade de quem sonha.

Agora quem sorria era eu, enquanto via a imagem se dissipar. Esperei para ver o que viria em seguida. Ao deparar, no espelho, com uma mulher idêntica a mim, estremeci. Nem sorriso de criança, nem olhar sonhador em que eu pudesse fazer alguma distinção. Era eu mesma: não mais uma menina, mas uma mulher inteira. Tinha uma expressão atenta, um olhar altivo, corajoso. Ela me olhava, mas tinha pressa. ‘O tempo’, ela disse, e eu não me espantava com mais nada daquilo. A ânsia de recuperar o tempo perdido e a vontade de servir-se do tempo que ainda lhe restava eram as coisas que a impulsionavam. Eu sabia, eu tinha certeza. Porque ela era eu.

Antes que a imagem desaparecesse, abri os olhos e vi-me na cama tão familiar. Agora, escrevo este autorretrato inexato, o qual o tempo, com sua sucessão de dias, definirá. Sou eu a menina? A moça sonhadora? A mulher confiante e decidida? Sou todas elas e muitas outras; não sei se chegarei a contar quantas sou, não sei se chegarei a saber de fato quem sou. Quando chegar o fim, pedirei aos meus amigos um caderno como este, para que eu possa descobrir mais uma mulher em mim e para ter certeza de que sou eu mesma no espelho daquelas palavras.

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O texto acima é uma das tarefas que fiz para o curso Terapia da Palavra. Essa tarefa, a primeira do curso, exigia que fizéssemos uma autodescrição de nossas facetas, parodiando o texto Sobre Fernando Pessoa, de José Saramago. O que criei não foi uma paródia, mas um texto mais livre, com algumas paráfrases.

No site do curso, que pode ser feito presencialmente ou online, você poderá obter mais informações sobre a proposta e novas turmas.

Coisa de quem lê

Há muito tempo eu gostaria de ter um espaço além deste aqui. Depois de pensar no tema e na hospedagem, pesar os prós e os contras, resolvi criar um blogue temático: o Coisa de quem lê.

Aqui continuará sendo um espaço de divagações, delicadezas e gritos, como sempre foi. Mas se você quiser ler e conversar sobre livros e assuntos relacionados, lá é o lugar. Sugestões são muito bem-vindas! Continuaremos nos encontrando, agora em dose dupla.

O Tesouro

Um tesouro continua sendo um tesouro mesmo que escondido.

Mesmo que os dias presentes ofusquem seu valor.

Mesmo que, com os olhos embaçados, não lhe creditem o brilho que ele tem.

Mesmo que não se saiba o que fazer com tanta riqueza rejeitada.

E porque é um tesouro, ainda se mantém sem perder o valor, apesar das portas fechadas e do esquecimento.

Sobre o Dia das Mães

Não sou muito adepta de datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das crianças, etc. Naturalmente, podem ser boas ocasiões para que familiares distantes se lembrem dos seus e eventualmente para que se aproximem um pouco das pessoas queridas. No entanto, não consigo deixar de pensar que essas datas trazem um quê de hipocrisia.


 

Na última sexta-feira, ao abrir o e-mail que utilizo na empresa onde trabalho, deparei com uma mensagem em homenagem às mães intitulada "Mãe, sempre perto de você!". Resolvi conferir, por pura curiosidade, embora não esperasse muitas surpresas. Realmente não tive surpresas: uma animação bem produzida, com uma música de fundo e um texto cheio de clichês e de palavras bonitas.


 

Tive uma sensação muito desagradável após ler a mensagem. Fiquei pensando nos funcionários da empresa que por alguma razão não têm alguém para chamar de mãe ou para quem a palavra não significa absolutamente nada, visto que nem toda mãe é o modelo de amor, carinho e dedicação propagado neste período.

Quem dera todas as famílias fossem ideais; todos os filhos pudessem contar com suas mães, e que todas as mães pudessem ter seus filhos para abraçá-las, não só no Dia das Mães, mas nos aniversários, nas noites de Natal ou em qualquer dia, porque dias comuns também devem ser celebrados.


 

A atmosfera em que a maioria de nós fica envolta em datas como a de hoje nos empurra para a felicidade; faz-nos acreditar que a alegria está logo ali. E se você por acaso não tiver com quem se confraternizar, isso não é problema de mais ninguém; o que importa é consumir. E se você tiver alguém para abraçar e não tiver dinheiro para comprar um "bom presente", corre grande risco de ficar frustrado e pedir desculpas pelo transtorno.


 

Se você tem sua mãe no dia de hoje, não hesite em dar a ela o que seu coração manda. Se houver um presente material, ótimo; se não houver... Bem, não creio que isso seja um problema, principalmente se você tiver um bocado de carinho e verdade para oferecer. Por outro lado, se sua mãe não está presente, lembre-se: o dia de hoje é só uma data instituída, e a perfeição dos comerciais de tevê simplesmente não existe.

A Hora Certa

"Os momentos não chegam nunca tarde nem cedo, chegam à hora deles, não à nossa, não temos de agradecer-lhes as coincidências, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que nós necessitávamos."

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Trecho de “A Caverna”, livro de José Saramago. Sim, as palavras alheias têm me estimulado ultimamente.

Encontrei o fragmento no ótimo Mob de Leitura, um projeto cujo objetivo é incentivar o convívio com os livros de uma forma leve e inteligente. Além do blogue, vale a pena seguir o mob no Twitter e participar da comunidade no Orkut. Porque, como disse o poeta Mário Quintana, Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Livros só mudam pessoas.

Conselho

“Não faça a sua felicidade depender do que não depende de você”.

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Parte do comentário da Valéria Martins a respeito do post abaixo; frase para ficar na cabeceira.

 

Alívio

Hoje eu seria capaz de abraçar você com a mesma intensidade com que o repeli da minha vida. Ainda que eu tenha um medo atroz de tocar você, queimar minhas mãos e meu corpo inteiro, saudade não é algo que se deixa de sentir assim, de uma vez.


 

Para mim era insuportável conviver com a distância que você educadamente estabelecia entre nós; nunca deixou que eu me aproximasse muito, eu entrevia somente o que você queria mostrar. Eu era uma pequena parte, uma peça periférica, o detalhe para o qual você virava as costas quando bem entendia. Eu dissimulava, negando quando queria afirmar, escondendo quando queria revelar


 

Eu lutava por um espaço que não era meu; Almejava o papel de protagonista de uma história na qual não havia lugar para mim. O lugar que eu mais desejava era de outra pessoa: alguém incomum, sublime, doce.


 

Construí uma parede entre nós, isolei-me e esqueci você do outro lado, mesmo não sabendo qual a sua consciência desses meus atos... Egoístas? Não, eu não diria isso; diria que eles são apenas mecanismos de autopreservação.


 

Embora tivesse muitas vezes a impressão de que você sabia, sempre soube de tudo, entendia que eu sentia errado, bem mais do que cabia a uma amizade politicamente correta, eu tinha (e ainda tenho) medo de ultrapassar a fronteira e romper a linha tão frágil que nos une. Na verdade, eu gostaria que você tivesse detectado o que acontecia dentro de mim; e que me dissesse, em alto e bom som: "Eu sei!" Sem explicações, sem mais palavras para clarear o que já é luminoso. Nada me deixaria mais feliz; aliviaria minha bagagem, permitiria que eu deixasse para trás o peso que carrego sozinha, o fardo das coisas belas que não são e nunca serão. Assim, quem sabe, eu poderei ir em frente, seguir por outras trilhas e demolir essa barreira, esse obstáculo que me dá, ao mesmo tempo, tanta segurança e tanto desalento.